08/03/2020

Fui

Fui à festa
você emburrou
fui ao médico
você não perguntou
fui fazer show
você nem assuntou
fui!
você ficou.

22/02/2020

Eu

Eu quero um dia comprido
nada que me passe.
Se faltar, completo.

silêncio

Levanto descalça,
delizo macio pela casa,
pego um sussurro de água
pra fazer café.
Fecho as cortinas,
repreendo passarinhos:
não quero acordar
os fantasmas da noite.

Distância

Onde foi que se perdeu?
Naquela esquina torta,
num trago atrás da porta?
Eu o procuro
nas lembranças boas
naquela conversa à toa. Onde foi que se perdeu?
Num sonho acordado
num papo mal passado?
Eu o procuro
a cada giro da chave
pra onde foi sua nave?

28/01/2020

Voltei pra lhe contar

Voltei pra lhe contar
o que vi passar
naquelas profundezas


Nem deu pra reparar
no retrato da beleza.
Logo me esculhambou
porque não pus à mesa


Chamaram pra entrevista
me deram nova posição
Nem deu pra festejar
Logo me desdenhou
porque estava presa


Comprei vestido novo
sapatos pros meninos
Nem deu pra estrear
Logo me rasgou
porque estava obesa


Caí no chão da sala
fez escuro na vista
Nem deu pra respirar
Segui a luz acesa.


Voltei pra lhe contar
o que me fez passar
naquelas profundezas.

A criança

Saudades daquela menina
afoita, mas cuidadosa
tão crente dos sonhos
quanto desaforada
Cadê a menina
que me enchia de vida
os olhos atravessados?
Cadê a criança
de pé no chão e cabeça
na nuvem de carneirinho?

31/12/2019

Natal



Então é Natal!
Mas cortaram a árvore,
desembrulharam,
os presentes,
o amor partiu
num trenó desgovernado.
Acharão as renas
caminho de volta?

06/12/2019

Quer vir comigo?

Quer vir comigo?
Espero,
se não se demorar.

Prometo caminho
a esmo
nem longe, nem perto
sem hora, nem lugar
de chegar.

Quer vir comigo?
Espero,
se não se demorar.

Arrume sua mala,
pegue a carteira,
deixe pra quem
quiser e puder
comprar.

Quer vir comigo?
Espero,
se não se demorar.

Vista um riso
desocupado,
apare as unhas,
enfeite com sonho
o olhar.

Quer vir comigo?
Limpe os pés
na soleira,
ao sair.

01/12/2019

no alvo

No meio da noite,
freadas,
uma explosão.
Palavras de grosso calibre
cortam a chuva fina,
certeiras ao alvo.
As nuvens abrem caminho:
teu sol, sangue exíguo,
tropeça, empalidece
não quer amanhecer.

volto

Vigio teu sono pesado
imposto, forjado
no copo
que te amarra,
me solto e voo.
Não te assustes
volto antes da música,
antes que acordes.