13/02/2018

Com licença

Com licença do poeta
largo meus olhos no mar
dos náufragos
que sonham gotas
doces
e se recusam a nadar. 

Com licença do poeta
não vou navegar
nos tragos
que fazem marolas
ácidas
e ardem sem inflamar.

De novo!

Amanheci moleca
entardeci anciã
anoiteço mulher.
De novo!

14/01/2018

Romaria



Quando passava a romaria
brinquedo ficava de lado,
olho pregado nos cavaleiros
todos paramentados
com a melhor montaria.

Na carroça vinha o santo
Num andor adornado,
e cavalos muito faceiros
sem poder olhar de lado,
batendo casco na via.

As lojas baixavam portas,
as mães pediam silêncio,
os homens, chapéu no peito,
mas a gente só via 

o brilho da fantasia.

03/01/2018

mingou

o arco-íris desbotou
quando caiu n'água.
perdeu o gosto
de flor, mingou
sem pudor.

tempo

Eu canto, rio e choro.
Cada verso tem um tempo.
Das lágrimas que vêm do fundo
às rugas penduradas na testa,
são estações a cumprir
que trespassam seu sono
ébrio de coragem e medo.
Tirem-me daqui.

destempero

você fala, fala, fala
eu não escuto.
você fala,fala,fala
eu sinto.
você fala, fala,fala
eu me ligo.
você fala, fala, fala
no meu ouvido.
você fala, fala, fala
eu abraço.
você fala, fala, fala
eu.

27/11/2017

de esgueira

não há venda
que esconda
o brilho falso
do olho a vaguear
a procura de uvas
num capinzal.
não há mordaça
que cale
o trinar agudo
da boca a silenciar
a verdade turva
sob o jirau.