da primeira vez que me vi
um tufo de pelos
ralos e claros
cobria o espanto
que os dedos descobriam
da primeira vez que me vi
duas bolotas rosadas
cresciam estrábicas
e se entumesciam
ao toque da água morna
da primeira que me vi
três gritos em surdina
escaparam assustados
encobrindo o marulho
do mergulho na banheira
16/01/2022
Nudez
Chuvinha
A chuvinha na calçada
canta um canto de paz
e solidão.
Por que tão egoísta
chuva,
que me esquece
no portão?
Quero sua friagem
derretendo
a tristeza
na minha mão. (2017)
10/10/2021
Tempo tempo
Até quando
a língua solta
as pernas céleres
a força no braço
a empunhar bandeiras
Até quando
a vela acesa
os tantos afazeres
os ganhos a laço
o erguer trincheiras
Até quando
a língua
as pernas
a força
até quando.
Avesso
Se sigo do avesso
será que alcanço
a tempo o passo?
Será que ultrapasso
o que não conheço?
A que preço
se dará o começo?
Espero, confesso
Um novo regresso
22/08/2021
À luz
Por trás dos olhos
por baixo do pano
um útero velado
dará à luz
(sempre dará)
um brado sagrado.
por baixo do pano
um útero velado
dará à luz
(sempre dará)
um brado sagrado.
14/07/2021
Uma rua
de nome que lembra flor.
Ali se cultivavam
pencas de filhos
vizinhos de quintal
namoros de muro
bandeirinhas na fria
noite de São João.
Na festa junina
tudo se misturava
carros de fora
barracas dentro
comida para todos
quentão para animar.
Tinha até quadrilha
daquelas pra dançar
arrodear a moça
queria se casar
segurava a barriga
pro pai não espiar.
Uma rua curtinha
de nome que lembra flor.
09/06/2021
Cilada
Não era amor
o que me trazia
entre margaridas
presas em um buquê
Não era amor
o que me servia
no pequeno copo
na mesa vazia
Não era amor
o que me fazia
quando se deitava
na minha pele fria
Era sim amor
o que me movia
quando, desacato,
me dei alforria. (bf)
05/05/2021
Trancada
Trancada, esquisita,
essa minha escrita
que entra pela janela
pródiga de vida
encolhida.
Recolhe, ainda aflita,
voos de liberdade,
alegria de passarinho,
um aceno do vizinho.
Vigia sempre, contrita,
desenhos nas nuvens,
a chuva inclemente,
o penar do poente.
Trancada, esquisita,
essa minha escrita,
que esparrela,
encontra a mulher
e se lambuza dela.
28/03/2021
Poesia andarilha
Bem lá no começo
da minha rua
a poesia se escondia
nas florinhas roxas
desmaiadas no asfalto.
A cada passo
brincava comigo
ora pique, ora esconde,
até amarelinha
para chegar ao céu.
Em alguma esquina
se perdia
para voltar ligeira
e chorar de amor
dizer que era minha.
Bem lá do final
da minha rua
a poesia ainda acena
e mostra no arco-íris
um buquê de versos.
25/02/2021
Adiamentos
Adiou a manicure
adiou a costureira
adiou até a festa
de mais um aniversário
Adiou o vestibular
adiou a viagem de férias
adiou até a compra
do biquini de todo ano.
Adiou os sonhos
adiou o amar fremente
adiou até o plano
de viver mais que pouco.
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