Caleidoscópio

sempre juntando os cacos pra fazer um novo brinquedo que gira, gira, gira...

22/08/2021

À luz

Por trás dos olhos

por baixo do pano

um útero velado

dará à luz

(sempre dará)

um brado sagrado.
Postado por Beth, Betinha, Betita ... não sou eu quem me chama! às 10:37 PM Nenhum comentário:
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14/07/2021

Uma rua

Uma rua curtinha
de nome que lembra flor.
 
Ali se cultivavam
pencas de filhos
vizinhos de quintal
namoros de muro
bandeirinhas na fria
noite de São João. 
 
Na festa junina
tudo se misturava
carros de fora
barracas dentro
comida para todos
quentão para animar.
 
Tinha até quadrilha
daquelas pra dançar
arrodear a moça
queria se casar
segurava a barriga
pro pai não espiar.
 
Uma rua curtinha
de nome que lembra flor.

 

Postado por Beth, Betinha, Betita ... não sou eu quem me chama! às 10:42 PM Nenhum comentário:
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09/06/2021

Cilada

Não era amor
o que me trazia
entre margaridas
presas em um buquê


Não era amor
o que me servia
no pequeno copo
na mesa vazia


Não era amor
o que me fazia
quando se deitava
na minha pele fria


Era sim amor
o que me movia
quando, desacato,
me dei alforria. (bf)

Postado por Beth, Betinha, Betita ... não sou eu quem me chama! às 7:16 PM Nenhum comentário:
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05/05/2021

Trancada

Trancada, esquisita,
essa minha escrita
que entra pela janela
pródiga de vida
encolhida. 


Recolhe, ainda aflita,
voos de liberdade,
alegria de passarinho,
um aceno do vizinho.


Vigia sempre, contrita,
desenhos nas nuvens,
a chuva inclemente,
o penar do poente. 


Trancada, esquisita,
essa minha escrita,
que esparrela,
encontra a mulher
e se lambuza dela
.

Postado por Beth, Betinha, Betita ... não sou eu quem me chama! às 10:17 PM Nenhum comentário:
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28/03/2021

Poesia andarilha

Bem lá no começo

da minha rua
a poesia se escondia
nas florinhas roxas
desmaiadas no asfalto. 
 
A cada passo
brincava comigo
ora pique, ora esconde,
até amarelinha
para chegar ao céu. 
 
Em alguma esquina
se perdia
para voltar ligeira
e chorar de amor
dizer que era minha.
 
Bem lá do final
da minha rua
a poesia ainda acena
e mostra no arco-íris
um buquê de versos.

Postado por Beth, Betinha, Betita ... não sou eu quem me chama! às 11:27 AM Nenhum comentário:
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25/02/2021

Adiamentos

Adiou a manicure
adiou a costureira
adiou até a festa
de mais um aniversário

Adiou o vestibular
adiou a viagem de férias
adiou até a compra
do biquini de todo ano.

Adiou os sonhos
adiou o amar fremente
adiou até o plano
de viver mais que pouco.

 

Postado por Beth, Betinha, Betita ... não sou eu quem me chama! às 6:57 PM Nenhum comentário:
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Desgaste

Desgaste desgosta
desengate da dor
destramele a língua
desenferruge a alma
descambe por ai
desembestando vida afora.

 

Postado por Beth, Betinha, Betita ... não sou eu quem me chama! às 6:44 PM Nenhum comentário:
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Distração

O que me distrai são as letras
escritas ou por escrever
embaralham-se
quebram minha cabeça
desde o primeiro f+o FO
brincando no colo do avô.
Postado por Beth, Betinha, Betita ... não sou eu quem me chama! às 6:43 PM Nenhum comentário:
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08/02/2021

Estações

Era verão
eu acho
quando recolhi o cachorro
soltei os vasos na chuva
prendi a vida na gaveta.

Era outono
eu penso
quando arejei os armários
empilhei os livros na mesa
comprei uma ampulheta

Era inverno
eu lembro
quando desci os cobertores
improvisei uma adega
varei as noites desperta

Era primavera
eu suponho
quando reabri as janelas
contemplei mil estrelas
vi a lua crescendo lenta

Era verão
eu acho.

Postado por Beth, Betinha, Betita ... não sou eu quem me chama! às 6:16 PM Nenhum comentário:
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20/10/2020

À francesa

Sempre gostava de ficar em casa aos domingos, naquele embalo de comer o que tivesse à mão, largada no sofá com o livro da vez e, claro, o momento fazer nada, ouvindo CDs. Assim era nos anos 80 do século passado quando a mortal pandemia da AIDs apavorava toda uma geração ao redor do globo, até se saber que havia prevenção eficaz, embora até hoje não tenha chegado uma vacina para o HIV.

Meu amor se você for embora / Sabe lá o que será de mim / Passeando pelo mundo a fora / Na cidade que não tem mais fim...

Ao som de Marina Lima, recordava os momentos felizes de um caso recém-terminado. Nem tão recente, nem tão caso. Uma brincadeira gostosa, que dava liga na mesa e na cama, mais saborosa inda porque secreta.

Temia que os colegas de trabalho descobrissem que a chefona saía por uma porta e o seu segundo, num instante, fosse por outra para na garagem combinar o programa da noite. Às vezes mais alguém descia, e a conversa engatava o planejamento da reunião do dia seguinte, na maior naturalidade.

Ainda achava melhor que ninguém tivesse tomado conhecimento, pelo bem do ambiente de trabalho. Era tão difícil manter autoridade numa equipe de 45 pessoas, a grande maioria formada por homens, e ainda os patrões, nordestinos da gema. Já era surpresa terem dado o cargo a uma mulher com pouco mais de 30 anos!

Mas fugir pouco antes da hora do almoço, no dia dos namorados teve sabor de travessura, como tocar a campainha do vizinho e sair correndo esbaforida, para voltar com quase sem fôlego, rosto afogueado e carinha de inocência.

Ele foi visitar as filhas pequenas, jantou e brincou até levá-las para a cama. Era tarde, mas a mãe esperava para conversar sobre os ajustes da separação ainda pendentes e, conversa vai, conversa vem, também foram para a cama. Assim ele contou na noite seguinte.

Ora dando fora, ora bola / Um irresponsável pobre de mim...

Lembrou-se do susto, uma decepção pontiaguda como uma picada da injeção de benzetasil, esperando a dor que viria em seguida. Mas o que veio foi uma calma inexplicável quando lhe disse: - Então tá, acabou para nós.

Riu, lembrando-se do olhar de decepção que ele fez ao balbuciar algo como “mas precisa?” a que não deu importância, chamando a conta do restaurante para acabar logo com aquilo. Será que passou pela cabeça dele que continuariam a se encontrar? Sim, eles sempre pensam.

Se eu te peço para ficar ou não / Meu amor eu lhe juro /Que não quero deixá-lo na mão /E nem sozinho no escuro...

O telefone interrompeu a música. Não é que era ele a dizer que estava na confeitaria bem em frente ao edifício dela e precisava lhe falar com urgência? Pensou por dois segundos e resolveu descer; aproveitaria para fazer um lanche, já que o dia passou na base de frutas e biscoitos.

Jogou um vestidinho fresco no corpo, passou a mão no cabelo, pegou a bolsa e o encontrou na mesinha mais ao fundo, à esquerda, onde sentaram por uma ou duas vezes nos tempos da molecagem.

Estranhou o ar grave, uma ruga na testa e as mãos girando a tulipa suada. Pediu um chope para acompanhar e refrescar a noite, enquanto olhava o cardápio sem decidir se comia uma quiche ou pedia o sorvete da casa, delicioso e que valia por um jantar.

Então ele falou, em voz baixa e olhos idem, que estava arrependido de ter voltado para casa, havia sido rápido demais e se deixou levar. Não estava feliz, Então, se ela o quisesse, iria imediatamente acabar com tudo e ficaria com ela.

Desta vez não se assustou. Acendeu um cigarro, bem devagar, deu uma, duas tragadas lentamente e propôs: - Vamos fazer o seguinte? Você resolve sua vida e daqui um tempo, quando estiver bem seguro e se ainda quiser, venha falar comigo.

De novo o olhar de espanto, parecia até que doía quando sussurrou o que pareceu um “então você não me quer”. Levantou e ia pedir a conta quando ela o interrompeu, dizendo que ficaria mais um pouco.

Tomou o sorvete, enorme, enfeitado com plaquinhas de chocolate suíço. Voltando ao apartamento, atirou a bolsa numa cadeira, ligou o som e se jogou no sofá para terminar o domingo.

E se você saísse à francesa / Eu viajaria muito mas / Muito mais...

 

Postado por Beth, Betinha, Betita ... não sou eu quem me chama! às 9:38 AM Nenhum comentário:
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Beth, Betinha, Betita ... não sou eu quem me chama!
Hoje guardo cacos de muitos tamanhos, cores, formas. Uns são brilhantes, vermelhos, amarelos; outros soturnos; há verdes, os azuis... Alguns sem cor, outros transparentes. Todos soltos num caleidoscópio gigante que gira e gira estrelas, labirintos, formas sem sentido. (23/06/08)
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